Educar para a saúde menstrual

“Mas é médica?”

Não. Nem aspiro a ser.
Os médicos tratam pessoas e eu não estou aqui para tratar ninguém porque o ciclo menstrual não é uma doença.
Quando é, tenho médicos com quem colaboro e a quem passo quem precisa de ajuda no sentido de despistar condições de saúde. Ou quando uma gravidez não parece ocorrer de forma natural, após termos esgotado todos os recursos, também faço sugestões e encaminho no sentido das ajudas “externas”.

(e aqui pelo meio, uma palavra de apreço aos médicos em quem colocamos um peso tremendo e que são apenas pessoas a tentar fazer o melhor que sabem e não sabem tudo.)

Mas vamos por partes, reparem no que aconteceu:
Há cem anos, em Portugal, as mulheres tinham filhos às mãos-cheias e morriam antes de chegar à menopausa. Menstruavam pouco, claro. O que sabiam era que se a menstruação não chegasse durante 3 meses, estavam “de esperanças”.

Depois, há quase 60 anos, fomos dos primeiros países europeus a disponibilizar a pílula contracetiva. O que queríamos? Parar de ter filhos, senhores! E conseguimos ?? e com isso, a estrutura do país alterou-se porque a condição social da mulher também se alterou.
Passámos a ter mais mulheres com mais qualificações para o mercado de trabalho, mais mulheres no ensino superior, menos mulheres casadas por não terem como se sustentar, enfim… Não podemos negar o que a contraceção fez por todas as que vieram antes de nós e fizeram uso dela, e o que ainda faz por nós, hoje.

Porém, se se sabia alguma coisa sobre o ciclo há 60 anos (a ovogénese foi mapeada apenas por volta de 1930) hoje sabemos imenso. Ou pelo menos, sabemos muito mais.

Estudamos o ciclo, na sua dimensão física e psicológica, o impacto das hormonas sexuais ováricas na saúde ginecológica, mamária, óssea, cardiovascular, a interação de todas estas coisas com o resto do corpo e da vida.

Educar para a saúde menstrual e para a fertilidade faz parte do programa POPIN das Nações Unidas desde 1992, não porque o foco são os países do “3º mundo” e “coitadinhos, não têm melhor” mas porque sabemos que a literacia de corpo promove comportamentos mais saudáveis em relação ao mesmo, e no que diz respeito às opções diárias de cuidado e de índole sexual.
O empoderamento das miúdas e mulheres só é possível com instrução e educação, e é crucial, aqui e na China, para um tecido social dinâmico e sem polarizações de género.

Portanto, não estou aqui a inventar nada.

A Educação para o Ciclo Menstrual não é uma celebração da menstruação, com luas e rituais. Isso é de escolha livre, tal como ser devota a um santo ou fazer o caminho de Santiago quando se tenta engravidar.
Somos o conjunto de crenças que temos e está tudo certo.

Educar para o ciclo é outra coisa.
É colocar o foco de onde ele saíu em 1960: na ovulação.
Um corpo em equilíbrio, ovula. Um corpo em equilíbrio, está fértil.

Educar para o ciclo é empoderar todas as mulheres e pessoas que menstruam com informação fidedigna sobre o funcionamento do seu corpo, permitindo-lhes entender como podem usar o ciclo como um árbitro de práticas quotidianas e, cereja no topo do bolo, desconstruir o estigma e a desinformação que ainda habita nas cabeças e um pouco por toda a internet, onde se democratizou a normalidade do sintoma: as dores, as mudanças de humor, a vontade do chocolate, a choradeira pré-menstrual.

Uma chatice! Quem não quereria livrar-se disso?!

Estou cá para ajudar a desconstruir isto tudo, para vos dizer que essa cena toda que resulta em memes engraçados sobre o período não é um fruto de um ciclo menstrual em equilíbrio, e que há trabalho a ser feito.

Estou cá, há quase 10 anos, de mangas arregaçadas para reduzir o analfabetismo de ciclo.
Os médicos têm mais que fazer.

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