O longo caminho dos tratamentos de fertilidade

Cerca de um terço das mulheres que acompanho estão em tratamentos de fertilidade.
Apresentam, na generalidade, níveis altos de ansiedade, frustração, muitas perguntas ainda sem resposta porque receberam diagnósticos violentos nas palavras ou porque parece estar “tudo bem com os dois” e, muitas vezes, há anos que fazem contas ao dinheiro, escolhendo abdicar das próximas férias em troca de mais um tratamento…

O relato (longo) que vos trago hoje é, na verdade, uma história comum. Uma cliente muito querida decidiu partilhar o seu percurso-em-curso convosco, para que possamos sensibilizarmo-nos para o facto da fertilidade ser condicionada por vários fatores e lembrarmo-nos que precisamos olhar para o todo a fim de melhorar as partes.

Hoje, dia do pai, é um dia difícil para quem tenta ter um filho (há 5 anos)! Apesar da nossa história não ter (ainda) um final feliz, talvez possa dar alguma esperança a quem, como nós se sente um bocadinho vítima da obsessão médica pelas estatísticas!
Eu tinha 36 anos quando parei de tomar a pílula … mas o meu marido precisou de mais 6 meses para se habituar à ideia (porque vivíamos num T1, porque o trabalho era incerto, porque … ). Um ano e meio mais tarde, devido à minha idade, fomos encaminhados para o serviço de infertilidade do Hospital de Santa Maria. O diagnóstico: fator masculino e idade materna! Alterações de quantidade, mobilidade e morfologia dos espermatozóides foram eufemisticamente designadas de fator masculino … eu? eu só era velha e … agora é que ali chegava? Alguma coisa a fazer? NADA… a não ser esperar 12 meses para FIV/ICSI (fertilização in vitro com micro-injecção de espermatozóides)!

Esperámos (15 meses) mas sempre na expectativa de um milagre da natureza… que nunca chegou! Dois meses de pílula, para acertar a agenda com a vaga que nos era oferecida, protocolo longo (com uma espécie de menopausa induzida durante 15 dias) e o resultado: 4 folículos, 2 ovócitos, 1 embrião D… que não resultou em gravidez mas prenunciou a alta hospitalar, 6 meses antes de completar 40 anos: «Estes tratamentos têm custos… e decidimos não efectuar mais nenhum ciclo. Pensem na doação de ovócitos, na adopção ou numa vida a dois» foi-nos dito! Sentimos o nosso mundo ruir …
Por indicação de uma amiga, cheguei à Patrícia Lemos! Perder os 10kg que tinha engordado com os meses de pílula o protocolo longo (e alguns abusos) era fundamental! Seguindo as indicações da Patrícia, descobri um novo olhar sobre o meu corpo…

O marido foi a um urologista, que identificou um varicocelo e receitou 6 meses de Dufine. Decidimos não arriscar a cirurgia. Em paralelo também diminuiu o consumo de tabaco, álcool e acabou com os cigarrinhos especiais de fim de dia para ajudar a dormir 😉 Passou a usar boxers largos e frequentemente passou a levar almoço de casa (aumentando o consumo de legumes e vegetais).

Seis meses e oito kg perdidos, iniciámos novo ciclo FIV/ICSI numa clínica privada – a mais cara e com o melhor laboratório de Lisboa! Estimulação com todas as bombas de última geração e o resultado: 6 folículos e 2 ovócitos inaptos a fecundar! O mundo voltou a ruir … a dor foi imensa! Como nem chegou a haver utilização do laboratório/tentativa de fertilização devolveram-nos grande parte do dinheiro pago logo na 1ª consulta! Paradoxalmente, o espermograma do marido … apresentava valores normais em termos de quantidade e mobilidade! Apesar do atendimento mais personalizado e sem tempos de espera … ouvi frases como: «estamos a partir de uma expectativa baixinha» ou «6 meses aos 20 anos não são nada mas aos 40 fazem diferença»! Na última consulta fomos totalmente bombardeados com a doação de ovócitos como única solução!

Continuámos com o estilo de vida implementado… eu continuei a perder peso (IMC de 33 para 27) e um ano depois voltámos à mesma clínica.

Doía-me a barriga só de sair naquela paragem de metro… agonia total ao chegar à recepção: sempre nos perguntaram o NIF ou o número de processo… De novo fomos recebidos com pessimismo: sem doação de ovócitos não aconselhavam nova tentativa. As nossas hipóteses estariam abaixo dos 5%… Dor mais do que profunda: nem a pagar uma pequena fortuna nos ajudam/deixam tentar?

Mudámos de clínica, passámos a dizer o nosso nome (e não o NIF) na recepção e encontrámos uma médica realista mas optimista: «acredito que ainda haja um óvulo bom … não podemos é adivinhar quando ele vai aparecer». E sem promessas, mas também sem insistências na utilização de óvulos alheios, iniciámos um novo ciclo: estimulação com protocolo XPTO e resultado: apenas um folículo! A médica aconselhou o cancelamento deste ciclo … era fim de ano, eu tinha decidido mudar de emprego em Janeiro … um emprego de 8 anos mas que era uma tortura há pelo menos 6 anos!

Avançámos de novo em Fevereiro: estimulação mínima, quase sem drogas… o ovário esquerdo em repouso e o ovário direito responde com 6 folículos e 5 ovócitos recolhidos. Destes, 4 foram micro-injectados e 3 fecundaram: 2 embriões A e um D! Infelizmente nenhum destes embriões resultou em gravidez… na estatística ficámos do lado dos 85% de insucesso (41-42 anos)! Desde o início que a estatística nunca nos incluiu nas probabilidades favoráveis mas este resultado deu-nos uma esperança que talvez ajude alguém a escolher o seu caminho…

Nesta clínica as consultas nunca começaram à hora marcada, a médica não tem assistente mas sempre conversou connosco, sempre explicou o que estava a ver ou o que ia fazer e… mais importante: nunca me fez sentir culpada (pela minha idade e por ter adiado a maternidade). Rematando:

1º Não deixem que as palavras que os médicos vos dizem fiquem a ecoar na vossa mente. Alguns alimentam-se apenas de estatísticas mas esquecem que os números do nosso corpo também são diferentes todos os meses! De um folículo em Dezembro … podemos passar para 6 folículos em Fevereiro! Quase aos 42 anos tive um resultado melhor do que aos 39 … e a minha anti-Mulleriana não mudou 😉

2º Senão sentem empatia e confiança com os profissionais de saúde que vos acompanham… procurem outros! Faz toda a diferença!

3º Procurem respostas para todas as vossas perguntas e se acharem que devem ir a um urologista ou a um endocrinologista vão!

4º É possível melhorar resultados de um espermograma: pequenas mudanças podem fazer a diferença!

5º É possível melhorar a qualidade dos ovócitos: pequenas mudanças (menos uns kgs de açúcar mais uns suplementos) ou grandes mudanças (arriscar e abandonar um trabalho que não satisfaz) podem fazer a diferença 😉

6º As mudanças não têm resultados imediatos e o nosso corpo pode necessitar de uns meses para se ajustar…

Que este testemunho, que ainda não resultou num bebé mas já deu muitos frutos, possa ser uma mensagem de esperança a todas as que estão nestes processos.

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