TPM ou TDPM?

Em mais de 5 anos de existência de Círculo Perfeito, tenho-me cruzado com muitas mulheres em quem a Tensão Pré-Menstrual (TPM) se manifesta de forma forte e com elevado impacto nas suas vidas.

A famosa TPM é utilizada para descrever o momento prévio à menstruação em que as mulheres apresentam alteração de humores, sensibilidade emocional alterada ou comportamentos exacerbados.
Ouvimos falar sobre ela desde meninas porque (infelizmente) serve como piada ou forma de justificar o comportamento “do mulherio”, e a internet está pejada de memes sobre isto.

Em termos clínicos, estima-se que a TPM atinja ±80% das mulheres na fase lútea do seu ciclo. Os sintomas são mais de uma centena (?) e vão desde questões físicas (inchaço, retenção de líquidos, tensão mamária, cravings alimentares, etc.) a outros do foro emocional (irritabilidade, choro fácil, mau humor…).

A sintomatologia da TPM é pontual e, sobretudo, não interfere com a capacidade de lidar com o dia a dia. É possível de gerir, cede quando promovemos alterações no nosso quotidiano pré-menstrual e não precisa de tratamento químico.
Há mulheres que não a sentem, outras que a utilizam para se conhecer melhor ou perceber o que não está a funcionar nas suas vidas.
A seu tempo, discutirei aqui o enquadramento socio-cultural da TPM porque me parece importante discutirmos o assunto de forma séria e integrada. Mas não hoje.

Hoje venho dizer-vos que entre as mulheres em idade reprodutiva se estima que 2-5% sofram na realidade de algo a que chamamos Transtorno Disfórico Pré-Menstrual (TDPM), uma condição listada no Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais (DSM-5) e que pode ter expressão fraca, moderada ou severa.

Apesar de em Portugal ainda ser raro fazer-se a distinção entre uma e outra, importa saber que falamos de coisas distintas e que o TDPM é um diagnóstico sério e que deve ser endereçado adequadamente.

A Gia Allemand Foundation – da qual orgulhosamente faço parte 😊 – assumiu como missão (após o suicídio da atriz americana Gia Allemand que sofria de TDPM) informar e educar a população em geral, mulheres, parceiros, médicos e técnicos de saúde, sobre esta condição.

O TDPM é um transtorno cíclico, agravado na fase lútea mas não é um problema hormonal.
Apesar da patofisiologia do TDPM ainda não ser completamente clara, os estudos apontam para uma interação entre a ciclicidade hormonal e os neurotransmissores, incluindo a serotonina, resultando num quadro de sintomas típico, que parece apresentar propensão genética, e que muitas vezes é confundido com o transtorno bipolar.
O agravamento de sintomas pode também ocorrer após eventos reprodutivos tais como a menarca, gravidez, parto, aborto espontâneo ou menopausa.

Ainda não existe um teste para diagnosticar o TDPM pelo que a única forma de o despistar é através do mapeamento de sintomas pelo menos durante dois ciclos menstruais.

Procuramos nas duas semanas prévias à menstruação, e de forma recorrente, pelo menos 5 dos sintomas listados abaixo, com manifestações de tal forma fortes que a vida “normal” se interrompe (ex.: faltas ao trabalho ou à escola, isolamento deliberado, etc.):

  1. Sentimentos de tristeza profunda, desespero ou pensamentos suicidas
  2. Sentimentos de tensão ou ansiedade
  3. Ataques de pânico, alterações de humor ou choro frequente
  4. Irritabilidade ou zanga (que não passa e afeta o relacionamento com os outros)
  5. Desinteresse pelas atividades quotidianas e relações
  6. Cansaço ou falta de energia
  7. Cravings ou compulsões alimentares
  8. Perturbações do sono (insónia ou sono excessivo)
  9. Perda de controlo
  10. Sintomas físicos como dores de cabeça, tensão mamária, dores musculares ou nas articulações

Problemas de tiróide, fibromialgia ou síndroma de fadiga crónica, lúpus ou perturbações de ansiedade podem mimetizar os sintomas pelo que faz sentido seres devidamente acompanhada no teu pré-diagnóstico, caso te revejas na sintomatologia descrita acima.

O TDPM é um assunto sério. Se sentes que este pode ser o diagnóstico que nunca te deram, se precisas de ajuda, fala comigo.

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