entrevista a soraia rosa

Entrevista a Soraia Rosa

Depois de anos de contacto virtual, conseguimos o ano passado sentar-nos à mesa do café para pôr a conversa em dia. Tem sido um prazer acompanhar o trabalho da Soraia e trago-a hoje no Periódico, em discurso direto, para que a conheças.

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Soraia, és fisioterapeuta e trabalhas numa área específica e, vou dizer, praticamente “desconhecida” do público em geral e até mesmo da classe médica… Queres falar-nos um bocadinho sobre isso?

Sim. Cá em Portugal ainda é uma área desconhecida da fisioterapia. Tenho especialização em reabilitação perineal. Isto é, lido com alterações físicas ao nível da zona pélvica e das estruturas envolventes. Por exemplo, incontinência urinária e fecal, disfunções sexuais, dores pélvicas, prolapsos… Trata-se de cuidar da disfunção numa vertente mais conservadora. Para além de tratar as disfunções, também sigo mulheres em pré parto, preparando o períneo para as alterações decorrentes do parto.

Falávamos no outro dia do facto de as mulheres estarem “doentes” e não se darem conta disso… O que achas que tem contribuído para esta desconexão entre as mulheres e o seu corpo?

Acho que em parte ocorre porque a mulher deixou de ouvir o seu corpo e estar conectada com os seus ciclos. A mulher nos dias de hoje apoia-se muito nos químicos, e banaliza muito as alterações que sente. Por exemplo, na minha experiência clínica, a grande maioria de mulheres que sofre de dores durante a relação sexual não procura ajuda. Seja após o parto, ou durante a vida a dor da mulher é banalizada. Muitos destes casos podem estar correlacionados com a toma da pílula. Esta deveria ser revista nestes casos. Como sabemos, a pílula pode levar a uma diminuição da libido na mulher, que leva a uma diminuição da lubrificação durante a fase de excitação….
Percebe-se facilmente o efeito bola de neve.

Vês cada vez mulheres mais jovens com problemas ao nível do pavimento pélvico. Isto deve-se a quê, em concreto?

No caso de mulheres jovens ocorre muito após o parto. Nós em Portugal não temos muito o hábito de preparar o períneo. Este deveria ser forte e flexível, tal como uma bailarina. Para isso deveríamos fortalecer, com as famosas contrações de kegel, e alongar com a massagem perineal ou uso do epino.
Outra questão que vejo muito são as disfunções sexuais, como o caso de dor durante a relação sexual. Pode ter diversas origens, mas para além das questões psicológicas, as alterações corporais ou cicatrizes após a episiotomia são as mais prevalentes.
Uma cicatriz que não sare corretamente, que apresente fibroses os esteja retraída, pode originar dor sempre que a mulher é penetrada.
O facto de a mulher não lubrificar corretamente e não haver um ensino por parte dos profissionais de saúde com esta população no pós-parto, faz com que muitas mulheres não se cuidem convenientemente.
Numa população ainda mais jovem, no caso de adolescentes sexualmente ativas, a falta de uma educação sexual correta, não vocacionada apenas para o negativo, mas sim para dar as ferramentas necessárias para vivenciarem a sua sexualidade em pleno.

A pergunta para o milhão de euros, já sabemos qual é: porque é que importa ter um pavimento pélvico saudável?

Períneo saudável, mulher feliz. O nosso períneo tem um papel importante em como sentimos a nossa sexualidade, quando este se mantem forte, os orgasmos são mais intensos, o mesmo como a sensação durante o ato sexual em si. Uma mulher que tenha uma perceção correta dessa musculatura, que apenda a contrair e relaxar corretamente, pode melhorar significativamente a sua vida sexual. Para alem de que, previne a incontinência urinaria e fecal, os prolapsos (queda dos órgãos pélvicos, como a bexiga, útero e reto).

Quais os primeiros sintomas e sinais de alerta a que devemos estar atentas?

Existem vários, mas a perda urinária pode ser um dos primeiros. De acordo com a International Continence Society, incontinência urinária é definida como uma condição na qual ocorre queixa de qualquer perda involuntária de urina, sendo um problema social ou higiénico muitas vezes erradamente interpretado como parte natural do envelhecimento.
A perde de ar durante a relação sexual também pode ser um indicio de que o períneo se encontra enfraquecido. O mesmo quando ocorre hemorróidas ou perda de flatos.
A dor pélvica é um dos sintomas que mais me preocupa. Pode ser tanto de origem hormonal como física. Não deve ser de todo menosprezada e a mulher deverá procurar ajuda. A sua sexualidade deve ser vivida em pleno, e não deve estar envolvida por dor.


Soraia Rosa é licenciada em Fisioterapia, Pós-Graduada em Fisioterapia na Saúde da Mulher e especialista em Reabilitação do Pavimento Pélvico.

Podes encontrá-la aqui:
Centro de Fisioterapia Dr Rasgado Rodrigues – http://www.centrorasgado.com/
Club Clínica das Conchas – http://www.clinicadasconchas.pt/
Clínica Amamentos – www.amamentos.pt

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assinat_Patricia

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