mulherendo endometriose

Entrevista a Susana Fonseca

A primeira entrevista de 2017 é com Susana Fonseca.
Muito se tem falado ultimamente sobre endometriose em Portugal e esse “muito” a ela se deve, e ao trabalho que tem desenvolvido na MulherEndo, associação com 3 anos da qual é Presidente.

Esta é a primeira entrevista de 2017 do Periódico: um espaço onde te apresento, em discurso direto, mulheres que vais gostar de conhecer.

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Susana, és Presidente da MulherEndo – uma associação de apoio a mulheres com endometriose. Conta-nos um bocadinho como é que isto acontece na tua vida. O que te traz até aqui?

Desde a primeira menstruação que a que melhor definição para esta fase do meu ciclo era DOR. Os anos passaram, os médicos foram muitos, os exames e a exposição foi maior ainda e nunca havia outra conclusão para além do “é normal ter dor menstrual”. A dor foi agravando de ano para ano e quando finalmente encontrei um médico que me escutou verdadeiramente e descobri que era portadora de Endometriose decidi que tinha de fazer alguma coisa para mudar a realidade desta doença no nosso país. A vontade era de mudar o mundo, mas comecei devagarinho, com um blogue sobre a doença, depois criei um fórum onde fiz amigas e criámos um grupo de trabalho para divulgar a doença e três anos depois surge a Associação que completa neste mês de Dezembro três anos de existência.

Quando percebeste que algo estava mal contigo? Como eram as tuas menstruações e quando/como se chegou a este diagnóstico?

Percebi logo aos 11 anos. Lembro-me que foi uma felicidade imensa quando me veio a primeira menstruação. Fiquei mesmo feliz porque “já era uma mulher” e “podia ter filhos”. Frases que fizeram sempre parte dos ensinamentos que me foram sendo transmitidos. Mas com a menstruação vieram as dores, que de mês para mês, ano para ano, se iam agravando. Lembro-me de ter 18/19 anos e estar deitada na cama a chorar de dor e a pensar que ia morrer. Não era possível sentir aquela dor toda e não morrer! Não era! Lembro-me de me querer mutilar para “arrancar” a dor. Felizmente não desisti de mim e continuei a procurar. Descobri a doença antes de qualquer médico. E só depois de já saber o que tinha encontrei um médico que percebia do assunto e que me disse que sim, que eu tinha Endometriose. Tinha 24 anos. Foi um dos dias mais felizes da minha vida… É irónico que o dia em que nos confirmam que temos uma doença para a vida, seja um dia feliz. Mas foi, porque a partir daquele dia eu sabia como e onde procurar respostas para me ajudar a viver melhor.

Tiveste um bebé recentemente contrariando as estatísticas da endometriose no que respeita à infertilidade. Que conselhos darias a outra mulheres que partilham desta tua condição e que querem engravidar?

Endometriose não é sinónimo de Infertilidade, mas quando a infertilidade surge associada a esta doença o mais importante é ser bem acompanhada por um médico especialista na doença. Realizar tratamentos de fertilidade sem perceber previamente em que ponto está a Endometriose é um erro por dois motivos, primeiro porque os mesmos podem não resultar devido à Endometriose não tratada e segundo porque a medicação que é necessário tomar pode agravar em muito a doença e causar quadros complicados. Primeiro há que tratar a Endometriose e depois então a Infertilidade.

Na tua opinião, e conhecendo o panorama nacional de perto, quais são os maiores desafios que se colocam às portuguesas com endometriose?

Os desafios são muitos e começam logo no diagnóstico tardio que ocorre não só pela falta de formação e informação da classe médica como da sociedade em geral que continua a achar que ter dores durante a menstruação é normal. Ultrapassados estes obstáculos, quando se tem um diagnóstico, as respostas verdadeiramente eficazes são poucas no nosso país, especialmente no Serviço Nacional de Saúde. Há um longo caminho a percorrer neste âmbito e é também por isto que todos os dias trabalhamos, e apesar das dificuldades que todos os projetos deste género acarretam, não desistimos nem esmorecemos!

Imaginemos que acabo de descobrir que tenho endometriose ou que, apesar de não ter esse diagnóstico, desconfio que essa é uma possibilidade. Que tipo de apoio me pode fornecer a MulherEndo?

A MulherEndo tenta dar um apoio o mais completo possível. Desde o esclarecimento de dúvidas sobre a doença, a uma palavra amiga nos momentos mais delicados, seja através das redes sociais, telefone ou presencialmente, passando também, e acima de tudo, pelo encaminhamento médico para os profissionais de saúde que têm competências na área.


Susana Fonseca
Presidente da Direcção da MulherEndo
Site: 
www.mulherendo.pt
Facebook: facebook.com/AssociacaoMulherEndo

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