Diana Ferreira

Entrevista a Diana Ferreira

É – costumo dizer – “a minha enfermeira favorita”.
Quando veio ao seu primeiro workshop do Círculo Perfeito há anos atrás, não sabia o que ela fazia profissionalmente mas foi a primeira de muitas enfermeiras a participar e a mostrar-me que há espaço para diálogo e que os técnicos de saúde não são todos iguais.
Em discurso direto, hoje no Periódico, Diana Ferreira.

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Fizeste o 2º nível do Círculo Perfeito gravidíssima da tua 2ª filha (que acabou por nascer também num dia de workshop CP!) e estás neste momento já a trabalhar. Já menstruaste? Como estás a fazer a tua gestão de ciclo e o que escolheste como contraceção nesta fase?

Esta minha segunda filha é um bebé “Círculo Perfeito”! 🙂 Resultado do conhecimento dos meus indicadores de fertilidade, de uma maior conexão interior, fruto da consciência do meu ciclo e das alterações deste, mesmo com algumas condicionantes de peso como os turnos rotativos ou a amamentação “prolongada” da irmã.
Segui o meu corpo e mantenho-me sem métodos hormonais.
No pós-parto imediato decidi que seria o LAM – Método da Amenorreia Lactacional pois ela tinha menos de 6 meses e eu amamentava em livre demanda (mas sempre atenta aos meus indicadores). Já da primeira filha, menstruei apenas quando a demanda nocturna diminuiu (o que ainda não aconteceu por cá e já vamos em 12 meses :), por isso, vou estando atenta a outros sinais físicos do meu corpo, como o muco e a posição do colo do útero. E em caso de “dúvida” nesta fase, não hesito e utilizamos método barreira. Tanto o preservativo feminino como o masculino, são opções boas e seguras.

És enfermeira num Serviço de Neonatologia. Sentes o impacto dos horários dos turnos no teu ciclo? (Se sim, como/de que forma?)

Oh se sinto! Quando começas a estudar mais o teu corpo e o modo como o trabalho – e os níveis de stress – afectam, começas a perceber perfeitamente que “cravings” constantes e alterações do humor não são só fruto de TPM. Os turnos, as noites e as poucas horas de descanso entre eles, faziam com que aumentasse o desejo por coisas doces (típicamente em busca de energia rápida) e me sentisse sempre cansada e com edemas. Com o mapeamento dos meus ciclos, comecei a verificar que quase todas as semanas tinha dois dias de “TPM” a seguir às noites. Ao aperceber-me disto, introduzi algumas mudanças simples, mas fantásticas, no meu dia: aumentar a hidratação (especificamente durante as horas de trabalho) e levar sempre uma marmita com comida de verdade, especialmente para as noites (snacks saudáveis, refeições de verdes e proteína…). É estranho para muitos, serem 9h da manhã e comer uma sopa com um ovo cozido depois de uma noitada de trabalho, ou às 2h da madrugada, para cear, atacares numa boa e rica salada… mas funcionou. E melhorou muito a minha qualidade de vida.

Lidas diariamente com bebés recém-nascidos. As meninas podem apresentar uma pequena descarga vaginal de sangue, dias após o nascimento. Este é um assunto abordado junto das mães? Há informação sobre o que é e porque acontece?

Seja na preparação para o parto ou aquando da vigilância de saúde do recém-nascido (em contexto de maternidade, unidade de saúde local ou pediatra) este tipo de alterações fisiológicas são normalmente explicadas e alertadas como comuns e benignas. Após o parto, com as modificações hormonais inerentes e a queda dos estrogénios (a nível materno), é comum verificarem-se estas alterações normais e passageiras nas meninas como a pseudo-menstruação que falamos, corrimento ou muco vaginal, e até ingurgitamento mamário (este último pode ocorrer em ambos os sexos).
Mas habitualmente ver “sangue” na fralda é algo que assusta os pais ou os principais cuidadores, mesmo quando são informados atempadamente, mesmo sendo expectável.

Sei-te envolvida e interessada em questões relacionadas não só com o ciclo menstrual mas também com o parto e com a amamentação. Da tua perspectiva, e enquanto enfermeira, o que te parece urgente mudar? E quais são as boas práticas que temos por cá?

Apesar de não sermos um país rico, temos bons indicadores de saúde materna e infantil. O SNS – Sistema Nacional de Saúde, mesmo com as suas limitações de recursos, funciona. Há um maior investimento na amamentação, nos cuidados que promovem o desenvolvimento da conexão entre os pais e o bebé, a possibilidade de permanência dos pais em contexto de internamento dos filhos… temos boas práticas e vontade de fazer melhor. Mas é difícil contornar instituições e os seus protocolos ou convenções sociais pré-estabelecidas. Porque o mundo dos bebés é inerente ao das mães (e pais) que com eles nasceram. Aquela mãe é também uma mulher, e nem sempre lhe é dada a possibilidade de escolha. E é isto que deveria mudar: a capacidade dos profissionais mostrarem caminhos diferentes e apoiarem as mulheres nas suas escolhas. Seja na contraceção, no parto, na amamentação ou na aleitação, no tipo de cuidados ao bebé. Há escolhas. Há tantas possibilidades. E uma mulher só pode escolher se for bem informada, sem julgamentos.
Acredito que a mudança se está a fazer aos poucos… assisto e conheço cada vez mais profissionais preocupados com boas práticas, com a verdade, com os estudos baseados na evidência científica, que investem tempo e dinheiro na sua formação, e conseguem sair da redoma protectora da “achologia” e dos dogmas das próprias vivências pessoais. Este é o caminho. Mas há também quem esteja menos aberto e fique desconfortável a uma postura de parceria, entre cuidador e quem é cuidado. E isto faz a diferença: quando te responsabilizas pela tua saúde, pelas tuas escolhas, não queres que decidam por ti. Queres que te expliquem, que te tratem como o ser pensante que és.
E o paradigma muda de duas maneiras: com os profissionais que vão batalhando por fazer diferente, e com quem é cuidado a exigir outro tipo de cuidados.

As mães são apoiadas nas suas decisões após o parto relativamente à amamentação (independentemente da sua decisão)? Fala-se de Amenorreia Lactacional nos hospitais? Têm havido mudanças nos últimos anos? (se sim, em que sentido)

Ao trabalhar num hospital que é Hospital Amigo dos Bebés a amamentação é incentivada desde as Consultas à Preparação para o Parto e, nomeadamente em todos os serviços que prestam cuidados à grávida, puérpera e bebé. Ainda assim, existe respeito por uma mãe que decida não amamentar (e se disponibiliza apoio e informação correcta sobre a aleitação). Contudo, como CAM (Conselheira em Aleitamento Materno) voluntária, tenho-me deparado com imensos casos de falta de apoio, desinformação e algumas más práticas a recém-nascidos saudáveis, que tiveram “azar” nos profissionais com que se cruzaram desde o nascimento, que minam não só a confiança materna como atrapalham o processo. Porque nem sempre é fácil, mas a amamentação exige tempo, paciência e disponibilidade.
Com o investimento crescente na formação de todos os profissionais no âmbito da amamentação, a Amenorreia Lactacional tem sido muito mais falada. Contudo, da minha experiência também como utente do SNS, creio que ainda há, em ambos os lados, algum receio de gravidezes inesperadas, pelo que o recurso à contraceção hormonal é o mais frequente (e muitas vezes a pedido da mulher).
Seja nos cuidados de saúde primários ou mesmo em consulta particular, conheço profissionais que desenvolvem um trabalho fantástico com as mulheres que acompanham… mas também sei que uma mulher que decida conhecer o seu ciclo e o seu corpo e perceber como funciona, nem sempre é bem acolhida. E o pior, é que pode ser mesmo ridicularizada. Porque a desinformação também existe nos profissionais, há quem considere que são “métodos pouco fiáveis” e graceje que essa mulher irá ter imensos filhos indesejados. Mas, curiosamente, todos conhecemos bebés frutos de erros ou lapsos na utilização da contraceção hormonal ou dos métodos barreira.
E o genial é que só custa tempo, mas é um investimento em ti, em conheceres-te melhor. Os métodos de controlo naturais de fertilidade dão-nos ferramentas pessoais, para um auto-conhecimento fantástico, que pode ser utilizado quer para engravidar como para a contraceção.


Diana Ferreira é mãe de duas filhas, enfermeira (com experiência em Neonatologia), conselheira em Aleitamento Materno, Doula e consultora de Babywearing nas horas vagas.
Podes segui-la no Facebook aqui.
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