entrevista a arty mori

Entrevista a Artymori

Quando me cruzei com o trabalho desta jovem francesa fiquei completamente extasiada.
Artymori (Amandine, de seu nome próprio) é uma artista visual que se inspira no Sagrado Feminino; Vive em Nantes e chega hoje ao Periódico, em discurso direto.

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Obrigada Arty por esta entrevista. Como é ser artista visual em França nos dias que correm?

Atualmente em França a regra de base de um artista é sempre o seu trabalho e a regularidade da sua produção. Alguns artistas já são referenciados por galerias ou coleccionadores. Outros fazem expõem coletivamente ou participam em residências artísticas a fim de se dar a conhecer. Mas na maioria dos casos, somos uma éspecie de “chefes de orquestra” do nosso mundo artístico: é preciso, primeiro, criar, depois comunicar o nosso trabalho, fotografar as obras, e criar uma rede própria de contactos, quer junto dos meios de comunicação como através da presença nas vernissages de outros artistas. É sempre bom estar presente fisicamente nas exposições e disponível, virtualmente, via internet. No geral, é algo que nos consome bastante tempo.

E onde, e como, começa a tua história?

Frequentei Artes Aplicadas em LIVET, em Nantes (França) e Comunicação Visual e Gráfica na ESAAB em Nevers (França). Os meus estudos mais técnicos não me predestinavam a um lançamento nas Artes Visuais. Isso aconteceu pelo caminho… Depois de me formar, decidi seguir a “escola da vida” e parti sem destino com rumo ao continente americano (norte e sul) por onde andei durante alguns anos. O que fui encontrando, as paisagens vastas e selvagens, acabaram por me reconetar ao desenho e à pintura. Comecei a garatujar os meus cadernos de viagem, já cheios de retratos que fui fazendo de pessoas com quem me cruzava, etc. e a partir daí, a minha imaginação começou a viajar, tal como eu naquela mesma situação…

E porquê o nome artístico “Artymori”?

Artymori é uma espécie de anagrama de “Moriarty”, nome de um personagem do livro “Pela Estrada Fora” do Jack Kerouac. Era um personagem que me fascinava pela sua desenvoltura e o livro inspirou-me sobre a forma como queria viajar. “Artymori” começou por ser apenas o meu nome de viajante e por isso a maioria dos meus amigos do outro lado do Atlântico tratam-me por “Arty”. Acabei por decidir-me a mantê-lo como nome artístico porque lhe encontro ainda outros significados: “Artemis”, deusa da natureza. O mundo natural é a minha maior fonte de inspiração… Depois ainda, o “memento mori” ou “lembra-te que vais morrer”, este género artístico ressoou em mim no sentido em que me recorda que devo aproveitar o momento presente porque nada é permanente e que tudo muda…

Contaste-me há uns tempos que estavas em fase de experimentações. Quais as coisas que produziste até agora de que mais te orgulhas e o que tens em curso, neste momento?

Não estou certa de ter algo, em termos de produção artística, de que me sinta completamente orgulhosa, mas estou, sem dúvida, a experimentar coisas para que possa usufruir desse sentimento um dia… Orgulho à parte, o que me vem à memória em termos de sentimento de gratidão e alegria pura, é o momento em que pude experimentar a arte de uma forma completamente improvisada e no meio da rua, com crianças no México. Nessa altura nem falava espanhol pelo que comunicávamos através de desenhos feitos com giz, no alcatrão ou nos muros e onde os sorrisos iluminavam tudo em redor. Foi uma troca mesmo bonita, mesmo verdadeira!

Nós conhecemo-nos devido ao belíssimo trabalho que fazes sob o mote do Sagrado Feminino. O que é que isto significa para ti?

Para mim, o Sagrado Feminino não é mais que uma Mulher consciente do seu poder. A mulher selvagem e natural é, de facto, uma figura que me inspira e me ensina muitas coisas. Ela é Mãe, a Terra, a intuição, a criadora, a deusa, a feiticeira, a loba…
Este é um tema de que gosto particularmente porque é ignorado pela maioria das mulheres. A imagem da mulher foi deturpada e explorada de todas as formas possíveis. Muitas vezes passou por ser apenas a “parceira do homem”, fruto de uma educação e comunicação baseada num modelo patriarcal… A imagem da mulher, tal como a da Terra, foram deturpadas. É preciso que a Mulher reencontre o seu devido lugar na sociedade, também e sobretudo pelo bem-estar do planeta.

Colaboraste com a Pabla Perez, no seu fantástico “Rituales y Medicinas para otras mujeres”. Como foi a experiência?

Cruzei-me com o trabalho maravilhoso da Pabla quando estava a viver no Chile. Andava à procura de informação sobre plantas selvagens chilenas e métodos ancestrais naturais de cura da América do Sul. O seu livro (Manual Introductorio a la Ginecologia Natural) é uma verdadeira bíblia. O seu trabalho é impressionante e muito inspirador. Acabei por começar com uma pequena participação no calendário lunar de 2016, com a ilustração de um dos meses, e o calendário de 2017 foi uma feliz continuação desse trabalho… Gosto muito de colaborar com a Pabla porque a sua filosofia de vida é-me próxima e acabo por partilhar isso com outros artistas que estão nesta mesma linha…

E para terminar, regressemos a França. Como vai a vida das mulheres? As francesas têm um forte legado feminista… As jovens estão a fazer bom uso dele?

É verdade que Simone de Beauvoir contribuiu imensamente para esta herança deixada às mulheres francesas. Apesar disso, parece-me que estamos um pouco atrasadas comparativamente a países no norte como o Canadá ou à Escandinávia… Algumas mulheres francesas têm mais consciência das coisas que outras, no entanto os meios de comunicação e o sistema educativo não são grande ajuda. Os salários das mulheres continuam mais baixos que os dos homens. As mulheres continuam a fazer parte do décor nas publicidades e feiras de carros… Continuam a existir pequenos grupos feministas fortes e organizados que contribuem ativamente para o movimento feminista mas há que continuar a trabalhar pois [este entendimento] ainda não é completamente intrínseco aos costumes da maioria das pessoas…


ArtyMori é pintora, ilustradora e designer gráfica.
Podes conhecer o seu trabalho aqui:
https://cargocollective.com/artymori
https://www.facebook.com/artymoriart

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