Entrevista a Andreia Barros

Já não me recordo como demos uma com a outra mas lembro-me bem da nossa primeira conversa, num café da Ribeira (por coincidência no aniversário dela), e do quão alinhadas nos sentimos, partilhando uma mesma visão no que diz respeito à saúde da Mulher.
A Andreia Barros é uma apaixonada pela fertilidade, enfermeira e acupuntora e apresento-ta hoje, no Periódico, em discurso direto.

*

Andreia, és uma enfermeira que se apaixonou pela Medicina Tradicional Chinesa (MTC).
Conta-nos um bocadinho sobre isso.

Por natureza acho sempre que há muitas formas de olhar para a mesma realidade. Sou assim na minha vida e a minha actividade profissional não é excepção. Pouco depois de concluir o meu curso de Enfermagem em 2004 fui desafiada por uma colega a fazer o curso de massagem terapêutica. Achei interessante mas fui sem expectativas – e adorei. Decidi então aprofundar os estudos em terapias manuais, iniciando a minha aprendizagem de conceitos orientais: yin/yang, energia, meridianos… Fiquei fascinada como podia haver todo um sistema de ver o corpo, a saúde, a doença totalmente diferente. E como fazia tanto sentido! No seguimento deste caminho concluí a especialização universitária em MTC e aqui deu-se mesmo a minha “conversão” – para mim a Medicina Tradicional Chinesa representa também um modo de estar na vida. Ter noção do corpo como um todo, como um ecossistema, em constante mudança e em interação com o meio.

Escolheste a área da Fertilidade para trabalhar. Quais são os maiores desafios que encontras no teu quotidiano profissional?

Trabalhar com um casal, que já em si forma um sistema complexo, um tema com uma carga emocional e cultural enorme, é sempre um grande desafio. A particularidade de cada caso, pois são todos tão diferentes, histórico, diagnóstico, enquadramento social…implica sempre todo um plano de tratamento diferente e adequada à situação de cada um.
Talvez o maior desafio seja a introdução de mudança de hábitos, pois não é só recebendo passivamente Acupunctura que se fazem bebés! Educo os casais sobre o ciclo menstrual e fertilidade e peço a sua participação e responsabilização – deixarem de fumar, terem cuidados nutricionais, abrandarem o ritmo de trabalho… O envolvimento do casal no processo é de crucial importância. Costumo dizer que é preciso “criar espaço” para a chegada de um bebé.
Outro desafio também é enquadrar, encaixar, a Medicina Chinesa nos tratamentos que estão a ser realizados, em paralelo, pela Medicina convencional, no sentido de remar para o mesmo lado, no melhor interesse da mulher ou do casal, principalmente quando tenho uma visão diferente…

Em que é que a tua abordagem se distingue daquilo que a medicina convencional oferece aos casais que lutam com um diagnóstico de infertilidade/tentam conceber através de meios assistidos?

No outro dia vi uma frase que partilhaste no Circulo Perfeito que dizia qualquer coisa como “quando uma flor não da fruto, trata-se o ambiente em que ela cresce, não a flor”, esta frase traduz uma das grandes diferenças. Procuro tratar a causa e não a consequência e vejo a infertilidade como uma das manifestações de um todo maior. Costumo dizer aos casais que não lhes posso garantir um bebé – as variáveis são infinitas – mas garanto que os ponho mais saudáveis e equilibrados. O mesmo não se pode dizer das técnicas assistidas – que são muito penosas principalmente para a mulher – são métodos invasivos, implicando tomas hormonais maciças,  com uma abordagem muito mecânica e protocolada. É um processo muito duro, física e psicologicamente, e ainda por cima com baixas taxas de sucesso. O número crescente de casais com o diagnóstico de infertilidade acentua esta protocolização e despersonalização – algumas clíncas parecem verdadeiras linhas de montagem.
Dito isto, vivam os avanços na ciência e tecnologia nesta área! E para muitos casais representa a melhor, senão única opção. Mas mesmo com estes avanços parece que há todo um sistema endócrino, imunitário, circulatório e emocional que fica esquecido.
Mas com objectividade respondendo à tua questão: a minha abordagem, que tem como base a Medicina Tradicional Chinesa, parte de um paradigma diferente, logo de um diagnóstico e ferramentas de tratamento diferente. A acupunctura e a fitoterapia chinesa são os dois grandes pilares.

Estima-se que a infertilidade atinja centenas de milhares de casais anualmente em Portugal e que o número continue a crescer nos próximos anos. Achas que há uma explicação para isto? Crês que as pessoas, e as mulheres em concreto, estão menos saudáveis que há décadas atrás?

A nossa estrutura social actual, em que há um adiar da idade para ter o primeiro filho, é inevitavelmente um factor importante para este número cresceste, no sentido em que há mais anos de exposição a vários factores de desequilíbrio. Eu acho que, se por um lado temos acesso a alimentação mais variada, por outro ingerimos uma enorme quantidade de toxinas e alimentos sem valor nutricional. Se por um lado temos acesso mais fácil a cuidados de saúde, vacinação, exames de diagnóstico, por outro estima-se que a mulher aplica mais de 500 produtos químicos no corpo todos os dias. Se por um lado as mulheres são mais livres, têm mais escolhas e mais recursos, o stress profissional, as exigências de perfeição na imagem, no trabalho, em casa é muito, muito desgastante. Vivemos a um ritmo frenético, sem tempo para parar, olhar para dentro, ouvir e sentir o nosso corpo. Portanto sim, acho que em muitos aspectos estamos menos saudáveis…
Soma que os homens também estão bem menos férteis – vários estudos em países ocidentais mostram uma diminuição muito significativa na contagem dos espermatozóides, em decrescendo desde 1940!

Se tivesses um (ou mais) conselho(s) para dar às mulheres que querem ser vir a ser mães, qual seria?

Escutem o vosso corpo. Eduquem-se sobre o vosso ciclo menstrual. Façam escolhas conscientes na vossa alimentação. Bebam muita água. Abrandem o ritmo. Dediquem uns minutos por dia só para respirar. Não fumem. Durmam.  E não deixem para mais tarde o que podem fazer hoje…


Acompanha o trabalho da Andreia Barros, aqui:
https://www.facebook.com/pontodafertilidade/
Enfermeira e Especialista em Medicina Tradicional Chinesa

*
assinat_Patricia

Carrinho Item Removido. Desfazer
  • Nenhum produto no carrinho.